quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Madalena

Avisto - te ao longe , mal consegui distinguir os traços do teu rosto mas percebi um sorriso breve , leve , que me prendeu ao teu olhar.

Páro por instantes que agora recordo como se tivessem durado quase uma eternidade.

Zambujeira do mar (1)

Tento sintetizar , quero sintetizar mas não me sai nada. Apenas o mar , ao fundo , e o barulho das ondas me embalam para outro universo , deixando o meu corpo estirado sobre a toalha enrugada por estes dias de descuido preguiçoso.

Está calor . Há outros corpos deitados ao lado do meu , outros ainda que se movimentam displicentemente junto à água , em desalinho perfeito.

O que está na nossa cabeça não nos deixa mesmo que caminhemos até á estrela mais distante , acabo de ler.

Sandra tem um rosto que me faz lembrar um sapo , um sapo simpático e amoroso , franzindo - se no meio da testa amiúde num gesto de aparente defesa.

É a tua ausência que me lixa - penso.
A falta da tua voz a encher o espaço , é o que me deita por terra - repito para mim mesmo.

Aninho - me bem junto dos lençóis , onde tento dormir , mas apenas o medo , um quase pavor , me deixa estático.

Planície

Atravesso a planície em direcção ao aparente infinito , caminhando ora em passo largo ora em calmo passo, aproveitando então para em redor olhar e observar a deslumbrante paisagem que a natureza , gratuitamente , coloca à disposição de quem para ela quiser reparar.

Penso na vida , na vida que já gastei , penso no que arrisquei , no que não arrisquei , nos medos profundos que me impediram de pronunciar as palavras certas no momento certo e nos outros , naqueles instantes em que a alegria fez com que os meus olhos se marejassem em lágrimas infantis que molharam de seguida a minha alma sequiosa de vida e de desejo, pérolas de um colar único, partilhado por aqueles que estão no coração .

São muitas as vezes que antecipo o instante ultimo que me há - de um dia separar desta existência terrena , mistificando-o ao ponto de ver nele o momento das verdadeiras revelações , da compreensão total do porquê das inquietações passadas , dos desencontros , dos instantes de solidão , do amor e do júbilo , da alegria , da tristeza, da fé , do choro e do riso, da angústia , da descrença , das lutas e guerras , da fome , da desigualdade , da injustiça , da partilha , da justiça , do equilibrio e harmonia , das paisagens sublimes , do silêncio.

Já pensei nesse instante ou instantes como momentos de amor supremo , de ternura genuína , de pureza.

Desejo

Um tempo cinzento , um tanto fora do que se espera do calendário , faz com que me retenha em casa pensando em corpos femininos , na volúpia que propiciam , enquanto os campeonatos mundiais de atletismo decorrem numa Osaka longínqua , próxima pela inevitável televisão .

A minha casa ainda desarrumada está uma espécie de caos que não apetece desfazer prolongando as férias que se aproximam do fim.

C. inunda os meus devaneios desejando-a fortemente ao ponto de estar prestes a cometer uma pequena loucura há muito apetecida. É roliça , cheia , sensual prometendo um mundo de prazeres carnais.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Solidão


A trágica história de Maddie continua a invadir os telejornais colocando-nos entre a indiferença e a exaustão , a impotência e o desgosto.
O tempo vai passando , deixando sobre mim um cansaço porventura amanhã esquecido quando me fizer à estrada rumo ao gozo de umas férias este ano um tanto sem rota certa.


Há pouco , conversas entrecruzadas , tinham como tema os telemóveis , aparelho de culto entre os portugueses , quase mais importante que os orgãos reprodutores , quiça um seu prolongamento.


A vida de solidão é estéril , terei lido algures . Concordo plenamente não obstante passar grande parte do meu tempo só e de muitas vezes retirar dessa quietude uma paz retemperadora.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Pela manhã


Acordo entre a bruma e o silêncio, tirando dos lençóis os pés quentes enquanto o olhar aguarda o teu que se moverá em jeito lento e suave. A manhã está tranquila e aparenta um dia promissor. Será assim?!

Continuas ainda deitada, o corpo espreguiçado pela cama inteira, agora só tua, enquanto vou rondando o espaço procurando perceber se ficarás mais algum tempo ou se sairás, aproximo – me da janela e espreito as cores que o tempo pintou sem pensar em futuro ou passado apenas no momento e deixo o olhar estender – se pelo campo fora, deixo que os sentidos se percam no exacto instante em que abro as portadas exteriores e deixo o ar juvenil da manhã entrar nas nossas vidas.

Viras o rosto em direcção a mim e quase não consigo aguentar a beleza dos teus traços ainda dormentes, ingénuos e puros, mas rolas de novo no sentido oposto e deixas – me ali, especado, a olhar o infinito que é o passado, a memória dos momentos vividos contigo.
Detenho – me uns instantes mais junto da janela que se abre à vida, observando os pássaros em voo sereno e o verde que me inunda de esperança enquanto tu permaneces estendida em preguiça inocente, envolta porventura ainda no que sobra dos sonhos da noite.

- Bom dia! – ergue – se pacifica tua voz que se espalha doce dentro da minha cabeça que quase já partira para outro instante.

- Bom dia – respondo, desenhando um sorriso em todo o quarto – como és bonita …! como ficas ainda mais bonita depois de uma noite de amor!...

terça-feira, 31 de julho de 2007

Abatimento

Um stress , de um lado para o outro , porventura em vão.

Cada dia que passa , a desilusão agrava - se , havendo momentos de um vazio incomodativo.

Parece que o deserto quer conquistar espaço. Talvez seja o cansaço o responsável por este estado de desânimo e por isso , quem sabe , depois das férias o sorriso volte a fazer - me companhia.

Os nossos passos levam - nos sempre a algum lugar. Por isso é tão importante que os saibamos dar. A todos. Podemos pensar: " Ah! , este pequeno desvio não fará mal..." - Pode ser fatal! Pode ser um irrecuperável desperdício de energia.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Instante

Um pássaro sobrevoa o jardim e mais ao longe o som da água a cair da cascata leva o pensamento para ao pé do sonho , um sorriso desenha - se no rosto e , por instantes , sou menino outra vez.

As folhas , nas copas das árvores , agitam - se levemente enquanto o vento as acaricia numa harmonia infantil .

Movimento

Corre uma levissima aragem que varre suave o calor de dentro do corpo.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Criação

Deus criou o Mundo num dia de confusão.
De manhã, quando abriu a janela do quarto o dia parecia florir à sua frente: o céu estava azul , os prados verdejavam de desejo e o sol brilhava com uma pujança esperançosa.
Contudo , mal saiu de casa , as nuvens apareceram . Primeiro brancas mas logo depois cinzentas , ameaçando uma chuva que rápidamente chegaria.
Mas que raio - pensou - ainda agora um promissor futuro e tão cedo desfeito...
Assim mesmo avançou. Continuou a árdua tarefa da construção do homem e do seu mundo. Com dúvidas , é certo , mas prosseguiu.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Luz

A luz branca espalha - se sem vergonha e amplamente pelo espaço que me circunda enchendo a atmosfera de ânimo , mitigando assim alguma tristeza que ficou de ontem e do dia anterior.


Nada como um dia limpo de sol para fazer renascer a esperança.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Melancolia


Olho pela janela a lua distante e duas lágrimas descem do canto do olho molhando-me o rosto de memórias.

Ao fundo , no ribeiro , correm mansas as águas dos sonhos e as sereias dos rios recolhem ao sossego da noite.

Nas árvores , os pássaros preparam - se para dormir , num roçagar de sedas.

Vem o silêncio , inundando a alma , enquanto tu , ó bela , esboças um sorriso que me estremece o coração.

Vem , silêncio, entra por mim .

Vem , alegria , deixa-te ficar ao pé de mim.

Escrever


Escrever , porquê?!
Porquê sair do conforto preguiçoso embora que pouco produtivo e chegar-me aqui ao computador sem saber muito bem o que escrever?!
Esta necessidade de dedilhar sobre o teclado de um computador, agora com a possibilidade de imediatamente ficar visível , é comum a um sem número de pessoas que , pela escrita se encontra , desabafa , ama , imagina , cria , faz humor ...

Assim é comigo.Escrever é uma terapia , uma companhia ; traz para ao pé de mim quem amo , quem estimo ; faz recordar-me dos bons momentos , ameniza os maus momentos.

Depois da noite a manhã


Procuro o teu olhar quando me deito .
Cerram - se as pálpebras entrando o silêncio.

O dia nasce cheio de cor que entra pela janela ampla da sala onde me detenho por instantes , respirando , enchendo os pulmões da frescura da manhã.

O sol espalha -se , elegante , pelo campo .

domingo, 1 de julho de 2007

No palco

A música gravada dá o primeiro sinal de que o espectáculo está prestes a começar e o meu coração ,sem que eu seja capaz de o controlar , começa a bater de forma algo descompassada num misto de contentamento e nervosismo. As luzes ajustam-se e os músicos entram no palco , atravessando-o . de forma discreta e subtil quando , na verdade , a eles cabe uma parte importante e fundametal do que vai acontecer a seguir. Começa então a magia de que tive o privilégio de partilhar em três sessões , todas diferentemente sentidas mas onde , em cada uma delas , o coração se emocionou de forma especial.



Entram as mães com os seus filhos pequenos pelas mãos . pisando a caruma ainda fofa e ordenada que é calcorreada pela primeira vez , porque há sempre uma primeira vez para tudo , experimentando assim que o exterior da mãe pode ser fofo também mas pode igualmente picar. São deixados por instantes a si mesmos e depois , ao chamamento das progenitoras , regressam à segurança do colo materno.

Há trilhos que se abrem , possibilidades de caminho que surgem e aí vamos nós , crianças que fomos um dia , à procura do nosso próprio rumo.

A vida poderá começar! É preciso limpar o palco , tal como a vida que ao principio está em branco , tudo para fazer , tudo para preencher, o espectáculo poderá então ter lugar.

terça-feira, 26 de junho de 2007

No ensaio

A luz incide clara e forte sobre os nossos corpos atrapalhando - me o olhar enquanto a jovem bailarina se deita no palco , em trabalho de ensaio.

Eu ali estou agarrando-lhe as mãos colocando no gesto toda a simplicidade e naturalidade que no momento consegui encontrar .

Gostei da experiência ! Saboreio - a ainda , talvez com o mesmo prazer das crianças que , pela primeira vez , brincam com um brinquedo novo.

Senti - me , por instantes , como se um actor eu fosse.

sábado, 23 de junho de 2007

Despertares

Acontecem sem que perceba muito bem como.

Talvez se entendam se nos detivermos a analisar todos os nossos passos na tentativa de reconstituir o que a memória permite , até ao passado mais longínquo.

Mas , pessoas , acontecimentos , vozes , cheiros , sons , ambientes , provocam o click que em vão e , angustiadamente , quantas vezes , procurávamos.

Há , no que emerge do acaso , uma lógica , um sentido , que remete , ah! , em quantas ocasiões , para um plano inferior aquele que resulta do esforço da razão no que toca ao entendimento das coisas.

A magia da vida estará então em que saibamos aproveitar ,o mais plenamente possível, o que o fortuito e o inesperado , generosamente , põem ao pé de nós.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Desabafo

Diz-me o silêncio que a solidão nem sempre é boa companhia. A solidão é , na maioria das vezes , um longo deserto que se tem que atravessar sem a certeza de que alguma vez se encontre um oásis ; e como custa atravessar o deserto.

domingo, 10 de junho de 2007

Inquietude
















Atravesso a rua deixando atrás de mim o marulho manso do mar e em poucos passos alcanço a porta entrando em casa , onde me instalo , entre uma simplicidade antiga e infantil e um sentimento novo , que me leva a ti , aos teus olhos , à tua voz , ao teu corpo todo .

Parando , interrogo-me , surpreso: O que está acontecer?! Mas que inquietação é esta? ...

Atravesso a rua , ouvindo o mar , sentindo as ondas caindo na areia , incansáveis e belas , espalhando um murmúrio brando mas de fulgor viçoso , sempre novo , que serenamente invade o coração.

Está ainda aqui , agora , embora tu distante , a tua voz , preenchendo este espaço vazio e assim , em silêncio , vieste tu adormecer junto dos meus sonhos.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Ondas



Ouvir-se-á o mar , para além de mim,
como antes de mim já se ouvira,
enrolando-se em branco as ondas para depois na areia adormecerem ,
estendidas.
Voltarão a acordar brancas , meigas ou revoltas ,
e eu terei partido , além ,
enquanto tu ficarás a escutá-las , com os pés na areia húmida , olhando ao longe , o horizonte